Monday, March 19, 2007

Rumos

(Ribirth - Osvaldo Gonzalez)
Na Terra,
A chuva, cada ano,
Atrasa mais.
O frio, cada inverno,
Fica mais quente
E o calor, cada verão,
Aumenta mais.
Nessa toada, quem sabe,
Não vai o planeta,
Revirar de vez,
Invertendo os pólos.
Ocorreira, então,
A propalada glaciação.
Certamente, se isso
Acontecesse, a terra
Voltaria ao
Invés de ir.
Giraria ao reverso
Em torno do sol.
A civilização seria
Destruída pelo cataclismo
E, não sei por que,
Mas, deveria renascer.
Certamente, diferente.
Uma nova oportunidade,
Também, de mudar
Tudo de vez.
Se essa revirada vier
A acontecer, eu creio.
Se não, não creio.
Porque não creio
Que a humanidade,
Por si mesma,
Espontaneamente,
Vá mudar algo,
Em seus rumos,
Algum dia.

Goiânia - 12/02/04

Gabolices


Veja o contador
De vantagens:
Até seus defeitos,
Seus males e
Misérias outras
São narradas
Como especiais.
Usando a maestria
Do suspense e do mistério
Consegue ressaltar detalhes
E dar brilho ao corriqueiro.
Seus defluxos e lambalgias
São histórias mirabolantes,
Heranças corretas
E inequívocas.
Se assim e assado
São os males comuns,
Quanto mais não serão
Ressaltadas aquelas doenças crônicas.
Mormente, diga-se de passagem,
Trombeteiam as vitórias,
Enaltecem os bens conquistados,
Relatam os causos nebulosos
Da própria família com orgulho
E referem-se aos pecados dos demais
Como infames, abjetos e imperdoáveis.
Gabam-se, até mesmo,
De dobrarem a vontade divina
E de mudarem o prórpio destino.
Não obstante, tanto brilho,
Competência e aptidão
Vivem o ledo engano
De enganarem-se
A si mesmos;
Porque, geralmente, aos outros,
Não envolvem, não enganam
E nem ludibriam
Com tais exageros.
Os gabolas são apenas, ou tão somente:
Frajolas dos discursos,
Reis das bazófias,
Divertimentos públicos
E arapucas para
Incautos.
Mas, estes
Não caem no logro,
Se oferecem.

Goiânia - 11/02/04

Friday, March 09, 2007

Os Flexíveis


Lado a lado
O jatobá e o bambu.
Tão semelhantes e tão próximos,
Tão vegetais e tão distantes.
Ambos a exaltar e a ressaltar
Com as recíprocas aparências,
Ante nossos olhos:
Qualidades e defeitos.
A dicotiledônea: Ereta,
Frondosa e forte.
Anunciando sua madeira,
Sua sombra, sua beleza,
Seus produtos e essências.
A monocotiledônea: Leveza
A balançar de um lado
Para outro, singela
E discreta.
Nesta, depreendem-se
As fragilidades e as
Parcas utilidades:
Seja na construção civil,
Sejam nos brotos comestíveis
Ou seja na flexibiidade
Dos colmos ocos.
Veio, porém, a procela:
Sopraram ventos e furações.
O jatobá foi desgalhado
E arrancado do solo,
Apesar de suas fortes raízes.
O bambu experimentou
As mesmas condições
Atmosféricas,
Mas, seus caules
Permaneceram de pé.
Assim são as pessoas:
As inflexíveis e as flexíveis.
As primeiras se quebram
E se acabam com as tempestades
E embates da vida.
Mas, as flexíveis
Se inclinam com os ventos,
Se deitam com o seu perpassar
E, novamente, se levantam para viver.
Permanecem firmadas nas frágeis,
Infinitas e verdadeiras raízes.
No antigo chão. Nas mesmas crenças.
Nos mesmos e intransferíveis valores.
Nas mesmas referências de vida
E no mesmo absoluto ser: Deus.

Goiânia - 10/02/04

Thursday, March 08, 2007

Leão Íntimo

(Aesop Series: The Lion and the Mouse by Arlene Graston)

Sinto,
Às vezes,
Qua há um leão
Rugindo dentro
De mim.
Porém,
Quando
Se manifesta
É um
Simples rato.
Seus rugidos
Ecoam nos meus
Mais escondidos,
Porém, são
Chiados o que
Ouso emitir.
Quisera
Pelo menos
A sagacidadde
Dos camundongos
Que vejo nas
Historietas televisivas.
Porquanto, mesmo
Não sendo o rei
Dos animais,
Pelo menos
Seria o esperto
Ratinho, no qual,
A inteligência
Faz toda
Diferença.

Goiânia - 10/02/04

Filhos


Cientistas sociais
E não sei quantos outros
Têm lá suas razões.
É fácil de comprovar
Seus doutorados ao vivo
No nosso próprio terreiro.
O primeiro filho,
Aquele que nos introduz
Na arte da patenidade,
É, também, nosso professor,
Nosso aluno e nossa vítima.
Tanto fazemos e influímos,
Que a criança, ao se espelhar
No cônjuge do mesmo sexo,
Torna-se dele, cópia
Em papel carbono.
Peço licença aos Hegelianos
Para chamá-lo de TESE,
Porque a comprova.
O segundo rebento
Nasce, por uma questão de
Acomodação, um contestador.
Será diferente. Lutador
De gênio indomável.
Não tenho a menos dúvida
Em nomeá-lo ANTÍTESE.
Já o terceiro,
Creio que ao chegar
Dá uma geral no ambiente
E assume a legítima
Posição de sentar-se no muro
E agradar a todos.
Amigo, conhece os caminhos
E os domésticos espinhos.
Coerentemente é a soma
Positiva e política dos irmãos.
Seu nome é SÍNTESE.
O quarto, se houver,
Esse, diante de tantos
Professores, exemplos,
E óbices de toda sorte,
Revelar-se-á um Anarquista.
Será a pessoa que,
Por todos os títulos,
Direitos e heranças,
Adotou a atitude
Límpida e lógica
De alguém que não gosta de leis,
Detesta regras e outras peias.
O anarquismo dele é o nosso.
Aquele que um dia, apenas, sonhamos;
Ele, o nosso filho, pelo menos, o será.
Que seja por alguns momentos.
Mas, o será.

Goiânia - 04/02/04

Porque Eu

(Quill Pen - Page Piland)

Já quis ser
Hermético. Fechado.
Monossilábico.
Todavia, somente fiquei
Limitado e engradado, em mim.
Quase morri.
O ser humano
Tem como uma de suas
Diferenças dos animais
A comunicação inteligente.
Por isso falo tanto
E muito me explico
Buscando comunicar.
Razão porque fugir
Do concretismo.
Difícil de se ver,
De se ler,
De se ouvir
E de se compreender.
Feliz, ou infelizmente,
Tenho assuntos
Demais para dizer.
E ultimamente
Abriu-se-me
A madre.
Tenho dado à luz
A três por quatro
E não vou perder
Meu estro
E nem menosprezar
Minha verve.
Poemas vão nascendo,
Mensagens vão chegando
E vou entregando.
Boas ou más,
Plenas de poesia ou não,
De conteúdo ou não,
De atrativos ou não,
São minhas criaturas,
Minhas caras
E vivências.
Gostaria, mesmo
Não sendo unanimidade,
De que pelo menos
O povo me apreciasse,
Favoravelmente.
Estaria, desse modo,
Justificado porque sim.
Por que o poeta.
Porque eu.

Goiânia - 06/02/04

Espero

(Embrace - Bronze Sculpture by Michael Speller)

O abraço macio,
Aconchegante e quente
É aquele que dão na gente,
Com amor.
Sem as malícias
Esperadas ou inesperadas,
Introdutoras ou não
Aos preâmbulos do sexo.
Sem a frieza
E o distanciamento
Formal ou protocolar.
Refiro-me àquele abraço
Que não acontece
Por força da circunstância,
Mas pelo amor.
Aquele sentimento
Que transmite seu interesse
E seu desinteresse,
Sem faltar ou sobrar,
Em nada, de amor.
Abraço receptivo,
Caloroso e festivo
Contando p'ra gente
Que temos alguém.
Abraço abraçado, apertado,
Muito mais do que físico.
Transpondo barreiras
Além e aquém da saudade.
Do nosso lar, da nossa casa
E do nosso chão.
Abraços repetitivos
Dos nossos irmãos
E imorredouros
De nossos pais.
De nossos filhos,
De nossos amados
E de nossos amores.
É esse abraço que eu quero.
É esse abraço que há muito espero.
Espero. Espero muito.
Muito espero.
Espero.

Goiânia - 31/01/04

Wednesday, March 07, 2007

Últimas Lições

(Father and son III - 1999 - Andrzej Jackowski)

No começo,
O filho caminha atrás e o pai à frente.
Este desbrava, alimpa e prepara o caminho
Para aquele, imaturo e incauto, passar.
Quando a criança cresce, aos poucos
Corre à frente e assume a dianteira
Crendo-se, então, guia do pai.
O candeeiro, todavia, é o velho.
O experiente deixa o inexperiente
Adiantar-se para avaliar seu desempenho.
De vez em quando, uma admoestação,
Um reparo quanto ao modo de prosseguir
Nas trilhas difíceis da vida.
Um dia, o filho, ao se deparar
Com algumas indecisões ou titubeios
Do ancião, o que antes não reparara,
E sendo, agora, um vencedor,
Resolve assumir posição inversa.
Ele é o maior, o dono e o senhor;
Até mesmo senhor do senhor seu pai.
Então uma palavra impaciente desponta,
Um pré-julgamento ou o julgamento apressado
Do modo, do quanto e dos receios do idoso.
A velocidade da informação do novo
E o contra ponto natural do antigo
Avulta e exacerba a liderança recente
Que começa a cometer exageros.
Calma, filho, paciência, diz o velho:
Ainda sou eu quem vai à frente
Mesmo sendo teu caudatário
E caminhando atrás.
Calma, filho, porque agora,
Certamente, é o momento e a hora
De ministra-lhe as derradeiras aulas
Relativas aos nossos velhíssimos temas.
Evidentes na paciência, no cuidado
E na previdência que recebestes,
Diuturnamente, na tua própria formação.
Calma, filho, ainda precedo-te.
Tenho, ainda, conselhos e admoestações.
Tenho, ainda, regaço para teu choro
E ainda tenho coisas preciosas para te dar,
Basta que disso, ou daquilo necessites.
Calma, porque o meditar
É arsenal suficiente para a nossa real
Necessidade de cairmos em nós mesmos
E de modificarmos nossas atitudes a tempo.
Finalmente, em tudo que suceda, ou que vier
A contecer na vida, o pai é primeiro e o filho é depois.
O caminho nosso é o mesmo, um só, porém seguimos sucedâneos.
O antigo na dianteira, porque ainda é o pai;
Venerável por todos os títulos e trancos.
Que não deseja ser peso, mas o é.
Qua não quer atrapalhar, mas o faz.
E que, todavia, não foge de ministrar as últimas lições
De equilíbio, ânimo, paciência e perdão.
Inegavelmente os mais difíceis atos de amor.

Goiânia - 31/12/03

Friday, March 02, 2007

Para Que Não Confundas

A primeira, a segunda,
E a derradeira
Manifestação de amor
É o respeito.
Aquele respeito que se traduz
Em consideração, deferência
Carinho e cuidado.
Aquele respeito ao objeto amado
Ou objeto do amor,
Seja gente, seja bicho
Ou seja flor.
Aquele respeito ao considerar,
Separar dos demais,
Dar tratamento especial
E santificado.
Se não, não é amor.
Talvez o nome para isso
Que demonstras
Seja dever, obrigação,
Imposição legal,
Social, moral, ou ética.
Mas, não é amor.
Amor não é assim.
Não é mesmo.

Goiânia - 25/10/03

O Alcance Do Amor

(Istanbul Museum of the Ancient Orient, Turkey - Oldest love poem in the world - 2030 B.C.)

Amei-te ao primeiro olhar,
No primeiro momento,
Quando adolescente eras.

Amei-te mulher
Nos fulgores da nossa mocidade,
Nos calores de nossa impetuosidade.

Amei-te ao nascer dos filhos,
Ao perpassar dos anos,
Na lucidez de nossos desenganos.

Amei-te na convivência do dia-a-dia,
Na multiplicidade das nossas perdas,
Na divisibilidade de nossos ganhos.

Amei-te e mais, ainda, amei
No diuturno instante da reconciliação,
No momento do recíproco perdão.

Amei-te vida afora,
E vida afora seguirei amando-te,
Querendo-te e preservando-te.

Amei-te, amo-te e ainda te amarei,
Mesmo quando o presente for passado
E a distância diluir nossa descendência.

Mas, se algum dia no futuro
Me perderes para a execrável morte
Terás meus poemas, meus consolos.

E quanto mais passar o tempo,
Tanto mais eu te amarei,
Na ausência de mim.

Porque meus versos terão mais peso,
Meu poema mais sentido
E, então, verás que muito mais te amarei.

Porém, se, ou quando me faltares;
Se, ou quando me deixares,
Então, muito, muito, muito mais. Além da conta, te amarei.

Goiânia - 18/02/02

A Nossa Flor Seca

Quero oferecer-te esta flor seca
Guardada daquele mesmo ramalhete.
Portadora de mensagem extrínseca
E da nossa existência, bilhete.

Não tendo mais o viço e antigo frescor,
Guardei-a, no entanto, esse tempo todo.
Pelo que foi, pelo que é, pelo amor
Que temos florescente, qual flor do lodo.

Sem fantasias e sons da doce vida,
Vivemos, das refregas, suas labutas
Corpo a corpo, sem descanso, sem guarida.

Em cada dia dessas renhidas lutas,
Um amor, maior que aquele amor nosso,
Cuidou-nos e sei que n'Ele tudo posso.

Goiânia - 09/02/04

Thursday, March 01, 2007

O Silêncio

( "In silenzo nel blu". Óleo sobre tela. Alessandra Rosini. 2006.)

Reclamas tanto
Que não mais
Te dedico
Poemas.
O silêncio,
Não basta?

Goiânia - 06/02/04

Tu

Não é
Porque tu és
Que eu, também, tenha de ser.
Ou porque tu não sejas
Que deixarei de ser.
Não me governas,
Nem és meu sol,
Muito menos, referencial
Para qualquer posição minha.
Não tens poder sobre mim,
Não me diriges,
Nem és meu Deus.
No entanto,
Dependo tanto
De ti.

Goiânia - 05/02/04

Ensejo Contínuo

Ao chegares e ouvires
As palmeiras alegres
E pranzenteiras,
Não te enganes,
Nem te empolgues,
Não o fazem por ti.
É apenas o vento,
E tão simplesmente
Ele.
Nem te impressiones
Com o farfalhar
Das folhas secas
Ou com o seu crepitar
Sob teus pés.
Nada contigo
E ao mesmo tempo, tudo.
Não te festejam,
Tão somente,
Esmigalham-se ruidosas
Quando pisadas.
Assim as fontes,
As cascatas cantantes,
As gotas coruscantes,
Os céus, as estrelas,
Os astros luminosos,
Iluminados ou chamejantes.
Todos exaltam e festejam
Não a ti e nem amim.
Nada se alegra, transmuda-se
Ou se entristece
Contigo ou comigo.
Por lá ou por cá,
Algures ou alhures;
Nada, em momento algum,
Soa ou ressoa comigo,
Contigo ou conosco.
Tudo ao nosso derredor,
Enseja e convida
À exaltação e à glorificação
Do Criador nosso
E de tudo mais.
Necessitamos, por uma
Simples questão de lógica,
De participarmos desse coral imenso,
Entoando cânticos magníficos
E infindáveis de louvor
Ao meu, ao teu,
E ao nosso
Criador

Goiânia - 01/04/04

A Morte Da Morte

I
Legalista
Não é aquele
Que lega a lista,
Mas, o que se alista
Nas hostes e letra da lei.
Que se enquadra nas quadras,
Nos arcabouços e nos detalhes
Da lei escrita que reza,
Mais do que preceitua.
Que estabelece,
Mais do que insinua.
Da lei que vigia
E que policia.

II
Mas, quem é este que?
Ouço das duras pedras,
Das águas correntes
E dos tecidos vivos.
Das ironias dos infenos
E em meio à voragem escuto:
Então, há, por aí, alguém
Que a lei cumpre perfeitamente?
Qual lei? De trânsito?
De boa vizinhança?
De qual, de quem ou de cujos?
Conversa, Jaú! Deixa dessa, sêo Zé!
Olha o olho do guarda!

III
Cumprimos leis
Pela força da lei
Que nos força à força.
Que impôe impostos.
Que leva à cadeia.
Que obriga, vigia,
Limita e cerceia.
Lei que amola, mata,
Maltrata e desapropia.
Leis humanas, morais, éticas
E espirituais para os incréus.
Para os que demandam aos céus.
Para os que buscam seus labéus.

IV
A lei é dura
Para os de fora
E boa para os de dentro.
Sim. Como não? Até onde?
Quam conseguirá cumpri-la?
Talvez o machado do verdugo
Nos livre de alguma condenação.
Porém quem nos livrará
Daquilo que não?
Daí porque veio Cristo:
Para cumpri-la morrendo
E para matá-la ressurgindo
E revivendo.

V
Contextualizada,
A lei é uma só.
Seja dos homens ou de Deus.
Transgredindo-se uma
Transgrediu-se a outra.
Daí porque estamos condenados:
Pois entendemos que teremos
De cumpri-las perfeitamente
Para chegarmos aos céus.
Por isso, Cristo morreu
Pela lei dos homens
E matou a lei da morte
Quando ressuscitou.

VI
Chegamos ao nó Górdio.
Para cortá-lo basta
Usarmos a espada da fé.
Se Cristo morreu por nós,
Estamos livres.
Não da lei da carne,
Pois somos carne;
Mas, da lei da morte.
Quando essa vier nos
Executar, matará a carne.
Mas, não a vida. Não a vida
Verdadeira recebida de Jesus.
Que é ele mesmo: Vida além da vida.

Goiânia - 25/02/04

Olhos Para Ver

(Imagem captada pelo telescópio Hubble - Nebulosa Helix, a 650 anos luz da Terra)

Giro, balanço
E oscilo
Dividido entre
O bem e o mal.
Nem, por isso, sou
Maniqueísta ou Dualista
A ponto de polarizar-me
De um ou de outro lado.
Não se trata disso.
Reconheço, sem duvidar,
Que o criador de tudo
É o mesmo e tem domínio
Absoluto do todo
E de seus detalhes.
Todavia, pelo fato
De sermos inteligentes,
Racionais e emotivos
Podemos fazer nossas
Escolhas e direções.
Incrivelmente, já que temos
Um proprietário ou dono,
Acredito que certamente
Ele não é, e nem seja,
Relapso ou desligado.
Nós que somos tão
Pequeninos, falhos e
Inconstantes sabemos cuidar
Daquilo que é nosso.
Importante ou não:
Até um prego velho,
Encontrado alhures,
Qua a gente vê,
Guarda e aproveita.
Por que Ele,
O supra-sumo da perfeição,
Não cuidaria do Planeta
Com mais atenção, justiça
E amor do que nós o fazemos
Com aquilo que é nosso?
Creio que Ele tenha vontade
Porque o que existe
Foi criado pelo exercício
Dessa vontade.
Também deve ter um propósito
Ou razão para haver
Criado tudo.
Finalmente, não estamos
Abandonados ao léu.
Se Ele tem vontade,
Certamente a exerce, exercerá
Ou a estará exercendo.
Desde sempre. Mas muitos
Não querem ver.

Goiânia - 09/02/04

Memória Imortal

(Salvador Dali's melting clocks)
Uma coisa puxa outra
E acabaram puxando-te
P'ra mim.
Donde viestes
Depois de tanto tempo?
Viestes de longe,
Do limbo, do lanho,
Da dor e da miséria.
Por que,
Ou a que vens?
Se for para
Que me lembre
De ti,
Basta,
Já fizeste
Teu trabalho.
Adeus,
Desapareça
De mim memória
Triste e mortal.
Abaixo
O baixo astral.
Fora a depressão.
Sou pessoa
Sadia e resolvida.
Adeus,
Não voltes mais
Teimosa memória
Que não me
Abandona.
Posso até dizer,
Sem pender
Para o caricato
Cristianismo:
Em nome de Jesus.

08/02/04

Porque Eu Canto

Partir,
Sem partir.
Dizer adeus,
Mas permanecer.
Porque eu sou
O carro de bois:
Quanto mais pesado
Mais afiado é o meu canto.
Morrer,
No entanto, viver,
Mesmo morrendo
Porque eu sou
O moinho que mói:
Quanto mais repicada a pedra,
Quanto mais lenta a mó
Tanto melhor o pó.
Chorar,
Sem verter
Uma lágrima sequer.
Porque eu tenho
A roda d'água
Que gira em mim.
Ademais,
Em todo o tempo,
Sou e cada vez mais sou
A roda, o moinho
E o carro de bois.
Quanto mais apertado,
Melhor é o meu canto.
Quanto mais padeço,
Mais permaneço.
Quanto mais desassossegado
Tanto melhor é o meu verso.
Porque minha poesia
Tem propósitos eternos
E meus cantares
São trinados existenciais
E gorjeios do ser
Que existe em mim.
Por isso eu canto.
Canto e não choro.

Goiânia - 02/08/03