(Father and son III - 1999 - Andrzej Jackowski)No começo,
O filho caminha atrás e o pai à frente.
Este desbrava, alimpa e prepara o caminho
Para aquele, imaturo e incauto, passar.
Quando a criança cresce, aos poucos
Corre à frente e assume a dianteira
Crendo-se, então, guia do pai.
O candeeiro, todavia, é o velho.
O experiente deixa o inexperiente
Adiantar-se para avaliar seu desempenho.
De vez em quando, uma admoestação,
Um reparo quanto ao modo de prosseguir
Nas trilhas difíceis da vida.
Um dia, o filho, ao se deparar
Com algumas indecisões ou titubeios
Do ancião, o que antes não reparara,
E sendo, agora, um vencedor,
Resolve assumir posição inversa.
Ele é o maior, o dono e o senhor;
Até mesmo senhor do senhor seu pai.
Então uma palavra impaciente desponta,
Um pré-julgamento ou o julgamento apressado
Do modo, do quanto e dos receios do idoso.
A velocidade da informação do novo
E o contra ponto natural do antigo
Avulta e exacerba a liderança recente
Que começa a cometer exageros.
Calma, filho, paciência, diz o velho:
Ainda sou eu quem vai à frente
Mesmo sendo teu caudatário
E caminhando atrás.
Calma, filho, porque agora,
Certamente, é o momento e a hora
De ministra-lhe as derradeiras aulas
Relativas aos nossos velhíssimos temas.
Evidentes na paciência, no cuidado
E na previdência que recebestes,
Diuturnamente, na tua própria formação.
Calma, filho, ainda precedo-te.
Tenho, ainda, conselhos e admoestações.
Tenho, ainda, regaço para teu choro
E ainda tenho coisas preciosas para te dar,
Basta que disso, ou daquilo necessites.
Calma, porque o meditar
É arsenal suficiente para a nossa real
Necessidade de cairmos em nós mesmos
E de modificarmos nossas atitudes a tempo.
Finalmente, em tudo que suceda, ou que vier
A contecer na vida, o pai é primeiro e o filho é depois.
O caminho nosso é o mesmo, um só, porém seguimos sucedâneos.
O antigo na dianteira, porque ainda é o pai;
Venerável por todos os títulos e trancos.
Que não deseja ser peso, mas o é.
Qua não quer atrapalhar, mas o faz.
E que, todavia, não foge de ministrar as últimas lições
De equilíbio, ânimo, paciência e perdão.
Inegavelmente os mais difíceis atos de amor.
Goiânia - 31/12/03