Friday, July 28, 2006

Valor Intrínseco


I
Canta a brisa
No arvoredo ralo, orla de mata,
Com ela canta a passarada
Em algazarra
De galho em galho, de ninho em ninho,
Brincando, amando
Em louca fara.
Início de verão, fim de primavera,
Riqueza de cores:
Nas folhas, nos frutos, nas flores,
Prodigalizando
Sublime aquarela.

II
Em leito de flores,
Ao solo deitado,
Semi-coberto por elas
E por elas laureado,
Eis, torto,
Em meio a tanta vida e sob cássias
Pendoadas, douradas,
Homem morto.
De valor, nessa figura esquálida,
Nem mesmo um anel;
Pelo chão folhas de papel
Identificam-no em letra pálida:

III
Morrer.
Ser enterrado num bosque,
Onde a cássia e o ipezeiro,
Forram o chão de amarelo,
No mês de janeiro.
Desintegrar-se, integrando o solo fecundo,
Pertencer mais à terra,
Saber-se mais útil ao mundo.
Para que dizer mais?
Não são versos valores reais?
Vai do homem o corpo e o espírito,
Mas, fica sua obra, seu escrito
Nos anais da história, na glória.

IV
Início de verão, fim de primavera.
Riqueza de cores nas folhas,
Nos frutos, nas flores,
Prodigalizando
Sublime aquarela.
E, naquele bosque,
Em meio a tanta vida
E sob cássias douradas, pendoadas,
O esteta,
A cada ciclo estacional,
Recebe ambicionado prêmio, sem igual:
Chuva de ouro,
Em túmulo de poeta.

Ribeirão Preto 28/05/59

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