Saturday, July 29, 2006

Quando

("Embrace"by Douglas Bechler)

Quando
Quero te ter
E te tenho,
Tenho todos
Tesouros
Teus.
Quando
Quero te ter
E a ti não tenho,
Tenho tolices:
As que tive,
As que não tive,
As que quase
E as que não.
Só tenho decepção.
Quando
Quero te ter
E a ti não tenho,
Outra não
Quero ter.
Tu me respondes
E me correspondes
Quando te tenho
Ou quando não.
Quando
Quero te ter
Quero ter
A ti.
Quando
Quero te ter
E tu não queres
Me ter:
Atento te tento
Tanto até que queiras
Ter a mim.
Eu quero,
Se tu
Quiseres.
Se tu não
Quiseres,
Eu não quero.
Eu quero ter
Só, única e
Exclusivamente
A ti.
Mesmo que sim,
Ainda que não.

Goiânia - 21/02/04

Friday, July 28, 2006

Rosa dos Ventos



Libertado sob os pontos cardeais,
Melhor fora se não pudesse optar.
Libertado, libertado, libertado!
Ah, inocência! Ah, inocência!
Quanto a quisera, quanto a almejo,
Melhor fora se não pudesse optar.
Da ignomínia muitas vezes estou coberto,
Da hipocrisia da humanidade me fartei.
Inocência escrava da hipocrisia.
Vaidade, vaidade, vaidade,
Tema único da humanidade infeliz.
Se lamento a inocência que não temos,
Invejo o ser irracional.
Somente choro a vaidade e a hipocrisia
Porque vejo a humanidade se perder:
Libertada sob os pontos cardeais
Prefere mais a guerra que a paz,
Mais a morte que a vida,
Mais a infabilidade tola e fútil
Que a grandeza do amor.
Humanidade triste e miserável
Libertada sob os pontos cardeais
Melhor fora se não pudesses optar.

Goiânia - 21/10/65

Valor Intrínseco


I
Canta a brisa
No arvoredo ralo, orla de mata,
Com ela canta a passarada
Em algazarra
De galho em galho, de ninho em ninho,
Brincando, amando
Em louca fara.
Início de verão, fim de primavera,
Riqueza de cores:
Nas folhas, nos frutos, nas flores,
Prodigalizando
Sublime aquarela.

II
Em leito de flores,
Ao solo deitado,
Semi-coberto por elas
E por elas laureado,
Eis, torto,
Em meio a tanta vida e sob cássias
Pendoadas, douradas,
Homem morto.
De valor, nessa figura esquálida,
Nem mesmo um anel;
Pelo chão folhas de papel
Identificam-no em letra pálida:

III
Morrer.
Ser enterrado num bosque,
Onde a cássia e o ipezeiro,
Forram o chão de amarelo,
No mês de janeiro.
Desintegrar-se, integrando o solo fecundo,
Pertencer mais à terra,
Saber-se mais útil ao mundo.
Para que dizer mais?
Não são versos valores reais?
Vai do homem o corpo e o espírito,
Mas, fica sua obra, seu escrito
Nos anais da história, na glória.

IV
Início de verão, fim de primavera.
Riqueza de cores nas folhas,
Nos frutos, nas flores,
Prodigalizando
Sublime aquarela.
E, naquele bosque,
Em meio a tanta vida
E sob cássias douradas, pendoadas,
O esteta,
A cada ciclo estacional,
Recebe ambicionado prêmio, sem igual:
Chuva de ouro,
Em túmulo de poeta.

Ribeirão Preto 28/05/59

Retalhos

Hoje,
Ao sair,
Ela acompanhou-me
Até ao portão.
Jogou-me beijos
E eu, ao devolvê-los,
Senti transbordar
O antigo amor que nos une.
Por átimos a instigante
Sensação de perda.
Por ínfimos instantes
O embargo da voz.
Não consegui dessa
Vez me expressar.
Sorri o sorriso
Que ela tão bem conhece.
E, em meio às teimosas lágrimas,
Ainda, busquei-a
No retrovisor do carro,
Enquanto murmurava
De mim para mim:
Deus me livre de perdê-la.

Goiânia - 12/01/04

Thursday, July 27, 2006

Mulheres

As mulheres são terríveis.
Incríveis,
Posso até dizer.
Algumas vezes, risíveis.
Outras, temíveis.
Adoráveis quando o querem.
Amáveis se puderem.
Cheias de liques, chiliques
E de muita fantasia.
Seus tiques,
Com essa poesia,
Têm muito de comum.
Bem sei:
Das mulheres amorosas,
Suaves como rosas
Que ninam a criança.
Das mulheres coroadas de glórias,
Entradas na História.
Mas, de tudo sabendo,
Não me rendo
E continuo dizendo:
As mulheres são terríveis,
Incríveis, mas, irresistíveis.

Rio de Janeiro - 1957